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Viver na Coreia, descomplicado

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Por que o BTS precisa ser coreano e, ao mesmo tempo, global?

Esta é uma análise aprofundada que explica, por meio do debate sobre a identidade do BTS levantado pela BBC, como o K-pop passou a ser cobrado ao mesmo tempo por sua identidade coreana e por sua globalidade.

Updated Apr 9, 2026
Essencial

O que a BBC apontou não é só uma briga de gosto

O ponto levantado pela BBC, segundo a Yonhap News, parece ser este à primeira vista. Será que, quanto mais o BTS vai em direção ao mercado mundial, mais ele se afasta do K-pop? Como aumentaram as letras em inglês, a performance mudou e até apareceu a expressão 'BTS 2.0', entre os fãs também cresceram juntos a expectativa e a insegurança.

Mas esse debate, mais do que um caso especial só do BTS, está na verdade mais perto de uma questão que o K-pop carrega desde o começo. É uma música que começou na Coreia, mas precisa crescer no exterior, e ao mesmo tempo precisa manter a língua coreana e a sensibilidade coreana, enquanto também deve ser entendida logo de cara pelo público do mundo todo. Falando de forma simples, é parecido com a situação de um restaurante querido do bairro que, de repente, entra no Guia Michelin e então começa a ouvir: 'por que o sabor está diferente de antes?'.

O BTS foi um grupo que carregou essa tensão de forma ainda maior. Não era só um grupo popular, mas reunia ao mesmo tempo quatro papéis: representante da Coreia, representante do K-pop, possibilidade do pop em língua não inglesa e estrela do mainstream global. Por isso, qualquer escolha que façam leva alguém a dizer 'está coreano demais' e outra pessoa a dizer 'agora está ocidental demais'.

ℹ️A pergunta deste artigo

Por que o BTS recebe ao mesmo tempo a expectativa de ter que ser coreano e a expectativa de ter que ser global?

Letras em inglês, mudanças na performance e a declaração de 'artista' são mesmo um afastamento da identidade, ou são uma forma de crescimento?

História

Da indústria da onda coreana ao centro do pop mundial, as expectativas em torno do BTS cresceram assim

O debate atual não surgiu de repente. Ele está mais perto de ser o resultado acumulado, pouco a pouco, do encontro entre o caminho de crescimento da indústria do K-pop e o caminho de expansão do BTS.

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Etapa 1: o K-pop já era, desde o começo, uma indústria 'voltada para exportação'

Do fim dos anos 1990 ao começo dos anos 2000, com o crescimento da onda coreana, o K-pop se firmou como uma indústria que era música popular doméstica, mas também mirava o mercado externo. Ou seja, a identidade coreana e a orientação global já estavam juntas desde o início.

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Etapa 2: o BTS traduziu a história da juventude coreana em emoções universais

O BTS, que estreou em 2013, colocou à frente experiências locais como a insegurança, o crescimento e o eu da juventude coreana. Mas essas emoções, de forma inesperada, atravessaram fronteiras, e os fãs internacionais começaram a sentir: 'é uma história coreana, mas parece a minha história'.

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Etapa 3: depois de 2017, o BTS deixou de ser apenas 'um grupo de K-pop com muitos fãs no exterior'

Ao mostrar presença em premiações dos Estados Unidos e na Billboard, o BTS começou a ser visto como um grupo asiático que entrou no centro do mercado pop mundial. A partir desse momento, o nível de expectativa dentro e fora da Coreia mudou bastante.

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Etapa 4: o discurso na ONU e a turnê mundial ampliaram ainda mais o simbolismo

O BTS passou a ser visto não mais só como um grupo musical, mas como um símbolo do soft power cultural da Coreia, ou seja, da força que cria influência não pela força militar, mas pelo encanto cultural. A partir daí, também cresceu a pressão de 'ter que representar a Coreia'.

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Etapa 5: o sucesso dos singles em inglês também aumentou o debate

Em 2020, 'Dynamite' e depois outros hits em inglês ampliaram de forma explosiva a popularidade do BTS. Mas, ao mesmo tempo, a pergunta 'então agora o BTS é K-pop ou pop global?' ficou muito mais clara.

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Etapa 6: agora exigem não só música, mas também gestão da identidade

Desde 2022, com a expansão das atividades individuais e da narrativa do grupo ao mesmo tempo, a identidade do BTS ficou mais complexa. Fãs, mídia e a indústria agora chegaram a uma fase em que discutem não apenas uma música, mas que tipo de existência o BTS vai se tornar.

Olhar

Quem espera o quê do BTS

GrupoO que mais esperaPonto que observa com sensibilidade
Público coreanosabor da língua coreana, linha emocional com sensação de vida real, proximidade como “nosso time”proporção de letras em inglês, coreanidade que parece exageradamente feita para exportação
Fandom do exteriormensagem universal, acessibilidade global, charme próprio do K-pop que ainda se sentese a diferença única do BTS fica apagada por causa de uma localização excessiva
Mídia ocidentalcompetitividade no mercado pop mainstream, expansão de gêneros, mudança na narrativamolduras como “ultrapassou o K-pop” ou “se afastou do K-pop”
Sociedade e indústria coreanasmarca nacional, representatividade cultural, possibilidade de expansão da indústriase continua mantendo o simbolismo de representante da Coreia
Língua

Se aumentarem as letras em inglês, a identidade se perde?

CritérioVisão que vê como perda de identidadeVisão que vê como evolução da identidade
Línguase a proporção de coreano diminuir, o sabor da língua e a emoção do K-pop enfraquecemo inglês é só uma ferramenta para aumentar a acessibilidade, não decide a identidade inteira
Sistema da indústriase correr atrás do mercado ocidental, a estrutura própria do K-pop pode se diluirse o sistema coreano de planejamento, a operação do fandom e a estética da performance forem mantidos, ainda é K-pop
Linha emocionalquanto mais inglês houver, mais fraca fica a transmissão das emoções sutis próprias do coreanopode alcançar emoções universais de forma mais ampla, então a narrativa até se expande
Estratégia de mercadopode parecer um compromisso feito para se encaixar no mercado ocidental que dá dinheiropode ser uma estratégia de tradução realista para uma estrela de língua não inglesa ir ao mercado mundial
Mudança

O K-pop já evolui junto com o inglês desde o começo

Por isso, se você olhar o uso do inglês como uma “traição recente”, isso fica um pouco fora da história. A música popular coreana já estava misturada com o inglês há bastante tempo.

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Etapa 1: mesmo antes do K-pop, a influência do inglês já era grande

Nas décadas de 1950~1960, por meio dos palcos do 8º Exército dos EUA, a música popular coreana recebeu forte influência de músicas em inglês, do estilo vocal americano e dos arranjos. Ou seja, o inglês não era apenas um elemento estranho que entrou de repente.

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Etapa 2: Seo Taiji and Boys popularizou a mistura

Depois de 1992, hip-hop, new jack swing, rap e expressões em inglês se juntaram à performance no estilo coreano, e assim foi criada a gramática do K-pop moderno. Foi um ponto de partida um pouco diferente da ideia de “música popular coreana pura”.

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Etapa 3: até na era dos idols de 1ª geração, refrões em inglês eram comuns

Do fim dos anos 1990 ao começo dos anos 2000, usar inglês em títulos, refrões e frases de efeito já era um recurso comercial comum. Mas havia a diferença de que a narrativa principal, em geral, era em coreano.

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Etapa 4: na era do YouTube, o inglês virou uma ferramenta estratégica

Desde os anos 2010, com o aumento da competição nas plataformas globais, o inglês deixou de ser um enfeite sofisticado e virou uma ferramenta para baixar a barreira de entrada dos fãs internacionais. A partir daí, o inglês entrou mais profundamente na estrutura completa das músicas.

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Etapa 5: nos anos 2020, cresceu a pergunta “isso é K-pop?”

Quando as músicas totalmente em inglês aumentaram, o debate sobre identidade entre os fãs ficou mais forte. Mas, também aqui, o ponto principal no fim não era tanto a língua em si, e sim quanto o sistema da indústria coreana, a performance e a cultura de fandom continuavam sendo mantidos.

coreanidade

A Coreia que os fãs de fora imaginam e a Coreia que os coreanos sentem são bem diferentes

CritérioCoreanidade que os fãs de fora imaginam com facilidadeCoreanidade que os coreanos sentem na prática
Símbolos visíveishanbok, papel hanji, minhwa, padrões tradicionais, imagens fáceis de traduzir como barracas de ruaDetalhes da vida diária difíceis de explicar, como o ritmo dos espaços do dia a dia, a cultura de apartamentos e o clima de empresa ou escola
SensibilidadeCódigos emocionais aprendidos repetidamente nos conteúdos, como afeto, ressentimento profundo, etiqueta e foco na famíliaSensações da vida real, como perceber o clima, cansaço das relações, pressão de vestibular e emprego, exército e cultura organizacional
Motivo de surgir estranheza na obraQuanto mais claro o símbolo, mais fácil é sentir que “mostra bem a Coreia”Quando os símbolos aparecem demais na frente, dá mais a sensação de “apresentar a Coreia” do que de “falar da nossa vida”
Ponto do debatePor que não colocam mais elementos coreanos?Por que usam a Coreia demais como símbolo, como se fosse um cartão-postal turístico?
mudança

“BTS 2.0” não é só um comeback, é uma fala sobre mudar o próprio papel

A expressão “BTS 2.0” não significa um novo álbum, mas está mais perto de uma declaração de que vai mudar a própria forma de olhar para o BTS. Se até agora o BTS era um grupo idol centrado na equipe, na performance e na narrativa da juventude, daqui para frente a ideia é passar para um modelo de artista de longa duração, mantendo atividades em grupo e individuais ao mesmo tempo.

Essa mudança não é tão simples quanto parece. No K-pop, mudar a imagem mantendo o grupo pode ser ainda mais difícil do que encerrar o grupo. Quanto mais forte fica a cor de cada membro, mais fácil surgir o mal-entendido de que o grupo enfraqueceu; por outro lado, se segurarem demais a identidade do grupo, fica difícil construir a narrativa de crescimento individual. Então, BTS 2.0 está mais perto de um relançamento que projeta ao mesmo tempo o coletivo e o individual do que de um “comeback”.

Por trás disso também está a mudança na estrutura de negócios da HYBE. Na carta aos acionistas de 2024, a empresa explicou que mais de 95% da receita de 2019 dependia do negócio de um único artista e disse que depois disso vem se diversificando para um sistema de 12 selos. Em outras palavras, o BTS agora não é apenas o retorno de um grupo, mas está sendo redefinido dentro de uma empresa global de música como uma PI sustentável no longo prazo, ou seja, uma propriedade intelectual e uma marca feitas para durar.

💡Mudança principal

Se o “BTS 1.0” era um ícone da juventude centrado no grupo, o “BTS 2.0” está mais perto de um modelo de artista de longa duração que combina grupo + individual.

Por isso a pergunta que os fãs escutam também muda. Não é mais “vai voltar como antes?”, e sim “que tipo de presença quer se tornar daqui para frente?”.

status

Idol, boy band e artista não são a mesma coisa

TermoSignificado principalNuance sentida pela indústria e pelo público
idolIdentidade industrial consumida em pacote dentro do sistema da agência, com treinamento, estreia, música, performance, visual e comunicação com fãsTem força popular, mas às vezes vem junto com o preconceito de “estrela planejada”
boy bandTermo de classificação externa usado principalmente pela mídia de língua inglesa para explicar grupos masculinos de K-popÉ fácil de entender para leitores globais, mas não consegue mostrar bem a estrutura industrial própria do K-pop
artistaLinguagem de avaliação que reconhece participação criativa, individualidade musical e autonomiaMesmo com o mesmo cantor, quando recebe esse título, muitas vezes ganha mais autoridade e autenticidade
mercado

Agora o mercado da música está mais perto de “música para ver” do que de “música para ouvir”

Quando você olha os números do mercado, dá para entender por que a escolha de reduzir a performance é vista de forma mais sensível. É porque o consumo de música deixou de ser uma disputa só de som e virou também uma disputa de vídeo e participação.

Mercado global da música proporção de streaming69%
Entre as músicas que entraram no Billboard Global 200 proporção de viralização prévia no TikTok84%
Palco

As expectativas para o palco do pop ocidental e para o palco do K-pop são diferentes

CritérioO que se espera mais de uma estrela do pop ocidentalO que se espera mais de um ídolo do K-pop
Palco ao vivoEspontaneidade, personalidade vocal, sensação de presença no localDança em grupo com sincronização perfeita, acabamento calculado até para a câmera
Significado da performanceElemento que ajuda a música ou reforça a emoçãoNúcleo do produto e motor que atrai ao mesmo tempo o fandom e o público geral
Difusão em vídeos curtosClipes vocais curtos ou personalidade marcante tendem a virar assunto com facilidadeCoreografia de destaque e desafios tendem a ser os principais mecanismos de difusão
Interpretação da redução da performancePode parecer uma contenção madura, como 'agora se sustenta pela música'Pode ser lido como decepção, tipo 'o impacto típico do BTS diminuiu'
Turnê

O BTS mudou o próprio 'nível' das turnês internacionais

A posição global do BTS aparece não só nas palavras, mas também nos números de ingressos. Foi um grupo que provou para a indústria que a popularidade no streaming pode se ligar ao poder real de compra.

2019 Love Yourself: Speak Yourself
2022 Permission to Dance On Stage
Público total
2019 Love Yourself: Speak Yourself
976,283pessoas
2022 Permission to Dance On Stage
458,000pessoas
Receita total
2019 Love Yourself: Speak Yourself
116.6milhões de dólares
2022 Permission to Dance On Stage
75.49milhões de dólares
Média de público por apresentação
2019 Love Yourself: Speak Yourself
48,814pessoas
2022 Permission to Dance On Stage
41,636pessoas
Significado

Por isso, esse debate não é só um problema do BTS, e sim uma pergunta que o conteúdo K sempre encontra quando faz sucesso no mundo

Resumindo, é isso. O debate em torno do BTS não é uma briga simples de ser a favor ou contra, como 'usou inglês vs não usou'. É a velha pergunta sobre até que ponto um conteúdo coreano que fez muito sucesso no mercado global deve continuar coreano, e a partir de onde deve escolher uma universalidade global. E foi no BTS que isso apareceu de forma mais clara.

Na verdade, o BTS é mais um grupo que não escondeu essa contradição e mostrou tudo. Começou com uma narrativa em coreano e conseguiu empatia no mundo, entrou mais fundo no mainstream com músicas em inglês, e agora está tentando se redefinir como artista, indo além de ídolo. Então, o dilema do BTS é mais corretamente visto não como prova de fracasso, mas como uma nova tarefa criada por um sucesso que foi longe demais.

Depois de viver uns 5 anos na Coreia, eu também penso muito nisso. Aquilo que os estrangeiros gostam e chamam de 'coisa coreana' e a Coreia em que os coreanos realmente vivem são sempre um pouco diferentes. No fim, o debate sobre o BTS também começa nessa diferença. Por isso, essa história parece um artigo sobre o BTS, mas na verdade também é uma história sobre como a Coreia quer ser vista pelo mundo e que tipo de presença quer ter dentro do mundo.

ℹ️Resumo em uma linha

O debate sobre a identidade do BTS está mais perto da questão 'como redefinir a identidade coreana dentro do sucesso global' do que de 'será que perdeu a identidade coreana'.

Então, o ponto principal para observar daqui para frente não é se vai voltar ao passado, mas de que jeito vai unir de novo a identidade coreana e a identidade global.

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